Ao longo de seis décadas, a TV Globo construiu uma trajetória marcante na teledramaturgia brasileira. A emissora lançou produções que atravessaram gerações e se transformaram em verdadeiros fenômenos culturais. Mesmo diante do crescimento das plataformas de streaming e das mudanças no consumo de entretenimento, a Globo ainda mantém novelas de grande repercussão, como Vale Tudo (2025) e Vai na Fé (2023).
No entanto, nenhuma delas conseguiu atingir um feito histórico alcançado há quase 40 anos. A novela Roque Santeiro, exibida originalmente entre 1985 e 1986, continua sendo dona de um dos maiores recordes de audiência da televisão brasileira.
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Criada por Dias Gomes e Aguinaldo Silva, a trama foi ao ar de 24 de junho de 1985 até 22 de fevereiro de 1986, somando 209 capítulos. Além disso, conquistou o público com personagens inesquecíveis como Roque, interpretado por José Wilker, a extravagante Viúva Porcina, vivida por Regina Duarte, e o poderoso Sinhozinho Malta, papel de Lima Duarte.
O sucesso foi tão gigantesco que o último capítulo registrou média de 96 pontos de audiência, chegando a picos de 100% dos televisores ligados em algumas regiões do país. Atualmente, números assim são considerados praticamente impossíveis para a TV aberta.
Censurada pela Ditadura
Apesar da consagração histórica, Roque Santeiro quase nunca chegou às telas. Inicialmente, a Globo planejava estrear a novela em 1975. Porém, quando cerca de 30 capítulos já estavam gravados, a produção sofreu veto da Censura Federal durante a Ditadura Militar.
Na época, os censores alegaram que a novela possuía forte inspiração na peça O Berço do Herói, escrita por Dias Gomes em 1965 e também proibida pelo regime militar.
Curiosamente, apenas Lima Duarte permaneceu no elenco da versão censurada para a edição definitiva de 1985. Na produção original, o protagonista Roque seria interpretado por Francisco Cuoco, enquanto Betty Faria assumiria o papel da Viúva Porcina.

Anos depois, Lima Duarte relembrou o impacto do retorno da novela em entrevista ao jornal Meia Hora, em 2021. Segundo o ator:
“Roque Santeiro sempre estava na pauta de todas as conversas, era uma novela que todos nós adorávamos e ficou 10 anos proibida. Só eu que era remanescente do elenco original, Sinhozinho. Mas foi muito feliz porque teve o maravilhoso Zé Wilker fazendo o Roque Santeiro e a Porcina, com a Regina Duarte maravilhosa.”
A trama que virou fenômeno nacional
Roque Santeiro satiriza a manipulação política e comercial da fé popular na fictícia cidade de Asa Branca. A história gira em torno do mito de Roque, um coroinha que teria morrido de forma heroica ao enfrentar os capangas do bandido Navalhada.
Após a suposta morte, a população passou a enxergá-lo como santo. Com isso, surgiram relatos de milagres atribuídos ao personagem. Consequentemente, Asa Branca prosperou graças ao turismo religioso e ao comércio de objetos ligados ao “santo popular”.
Entretanto, tudo muda quando Roque retorna vivo à cidade depois de 17 anos desaparecido. Sua volta ameaça diretamente os interesses dos poderosos locais, que enriqueceram explorando a falsa história do herói.
Entre os principais beneficiados pela lenda estão Sinhozinho Malta e o prefeito Florindo Abelha, que tentam esconder a verdade para não perder influência, dinheiro e prestígio político.
Além disso, a novela também conquistou o público por causa do intenso triângulo amoroso envolvendo a famosa Viúva Porcina. Embora nunca tenha sido oficialmente casada com Roque, ela sustenta a imagem de viúva sofredora enquanto vive secretamente um romance com Sinhozinho Malta.
Com o retorno do verdadeiro Roque, Porcina passa a viver um grande conflito emocional. De um lado, ela enfrenta o amor idealizado pelo suposto herói morto. Do outro, mantém a relação intensa e conturbada com Sinhozinho.
Bastidores marcados por disputa entre autores
O enorme sucesso da novela também provocou conflitos nos bastidores. Inicialmente, Dias Gomes escreveu os primeiros 51 capítulos da trama. Depois disso, transferiu a continuação para Aguinaldo Silva, que assumiu cerca de 110 episódios.
No entanto, conforme a novela explodia em audiência, Dias Gomes passou a demonstrar incômodo com o destaque recebido por Aguinaldo Silva. Por isso, retomou a escrita na reta final da produção, criando um clima de tensão entre os autores.
Em seu livro A Seguir, Cenas dos Próximos Capítulos, Aguinaldo comentou abertamente sobre o desentendimento:
“O Dias simplesmente não se interessou pela novela, tanto que ele me entregou os primeiros capítulos e depois viajou para a Europa. […] Quando ele voltou da Europa, uns três meses depois, Roque Santeiro já era um estouro, um escândalo de sucesso. Desconfio até que o Dias nunca tenha visto Roque Santeiro até o momento em que ele voltou a escrever.”
Apesar das divergências, os dois autores acabaram se reconciliando em 1999, cerca de 14 anos após a exibição da novela e pouco antes da morte de Dias Gomes.









