Quem assiste Direto pro Inferno e vê a atriz Erika Toda soltar um sonoro “você vai pro inferno!” na tela provavelmente não imagina o tamanho do iceberg que existe por trás dessa história. A produção da Netflix é ficção, como confirmado pela própria filha adotiva da protagonista real. No entanto, o que é real nessa trajetória é tão insano que, depois de conhecer, você entende por que ninguém precisou inventar muito.
De terrenos queimados a Rainha de Ginza
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Kasuzo Hosoki nasceu em 1938, em Tóquio. Sem currículo acadêmico, a menina que catava minhocas em terrenos queimados para sobreviver trocou a escola pela noite ainda adolescente. Virou hostess nos clubes de Ginza, aquele mundo de gola alta, uísque e acordos feitos em mesas de veludo. Aos vinte e poucos anos, já era dona de várias casas noturnas e carregava o título de “Rainha de Ginza”.
Ela se casou, se divorciou, e em dado momento um golpista levou embora o equivalente a 1 bilhão de ienes. Foi aí que Kazuko se viu endividada, com Yakuza literalmente na porta de casa e ameaças de morte no ar. Sabe aquela frase de que não há nada mais perigoso do que uma mulher inteligente encurralada? Pois bem.
A tábua de salvação mais improvável possível
Em vez de sumir, ela apostou numa saída que poucos arriscariam: o casamento relâmpago com Masahiro Yasuoka, um conselheiro espiritual da elite japonesa. Ele morreu meses depois, mas não sem antes lhe passar um mapa completo de como se vender nesse mundo.
Com o conhecimento herdado do marido, Kazuko embalou a velha arte da adivinhação num sistema brilhantemente mercadológico: a “Astrologia das Seis Estrelas”. Ela dividia as pessoas em seis grupos, entregava um manual de instruções anual e, de quebra, gravou no imaginário popular o terror da “Daisatsukai”, os anos de “grande matança” em que o universo simplesmente tirava a proteção de você.
Estima-se que sua taxa de acerto ficava em torno de 34%. Com um figurino que mais parecia uma armadura e uma língua afiada como uma katana, Kazuko se tornou a “Rainha da Audiência” nos anos 2000. Humilhava celebridades, previa términos de namoro ao vivo e cunhava o bordão que dá nome à série.
Mas atrás desse altar midiático, os exageros da série talvez sejam só a ponta do novelo. Investigações da revista Weekly Gendai, apelidadas de “O Currículo da Bruxa”, expuseram seus laços com o crime organizado e uma longa lista de esquemas de “espiritualidade premium”.
Adaptação da Netflix
A grande sacada de Direto pro Inferno está em assumir abertamente que o relato pode ser uma montanha de mentiras muito bem contadas. A série coloca uma escritora, Minori (Sairi Ito), para fuçar o passado de Kazuko, e o que ela encontra é uma “Rainha” que mentia sobre o currículo, sobre os amigos influentes e até sobre a relação abusiva que mantinha com a cantora Chiyoko Shimakura, usada como uma verdadeira mina de ouro nos anos 70.
Conhecer essa história muda completamente a experiência de ver a trama. Você para de enxergar apenas uma vilã caricata e começa a ver um reflexo distorcido de um Japão que saiu dos escombros para se tornar uma potência, mas que ainda recorria a videntes para decidir casamentos e negócios.












